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Disponível: [http://voit.uol.com.br/web/pagina.aspx?IDPagina=2285] Acesso em 13 out. 2008. ====================================================================================

John comprou uma casa no começo dos anos 90 por 300 mil dólares, financiada em 30 anos. Em 2006 a casa do John tinha valorizado e estava valendo 1,1 milhões de dólares. Uma valorização fantástica. Mesmo ainda faltando 20 anos para quitar a casa, um banco perguntou pro John se ele não queria uma grana emprestada, algo como 800 mil dólares, ou seja, uma segunda hipoteca. Ele aceitou o empréstimo e fez a nova hipoteca.
John não precisava do dinheiro, pois tinha um emprego estável, morava numa simpática casa no subúrbio de uma grande cidade, mas como todo americano, não podia escutar a palavra “crédito”.
Com os 800 mil dólares – e ainda sem saber o que fazer com esse dinheiro- John soube por um amigo que o mercado imobiliário continuava valorizando. Era construir, anunciar, vender e lucrar. Um ótimo negócio e, como disseram pro John, não havia risco. John comprou 3 casas em construção, na parte mais nobre da cidade, dando como entrada 300 mil dólares e imediatamente fez mais 3 hipotecas, uma pra cada casa. Porém, no acordo feito, o valor recebido pelas 3 hipotecas era pequeno, mas suficiente para terminar a construção dos imóveis.
A diferença, 500 mil dólares, que John recebeu pela primeira hipoteca, gastou mais ou menos assim: > Se deu de presente um automóvel de luxo novo (alemão) > Comprou uma SUV – automóvel utilitário - (também alemã) top de linha e superequipada para sua mulher > Deu um carro (japonês) para cada filho. > Equipou a casa com o que existia de mais moderno: TV de plasma (coreana) de 60 polegadas para cada quarto da casa, além de uma para a sala. > Instalou sistemas digitais que deixaram a casa inteligente > Presenteou cada membro da família com notebooks sofisticadíssimos (chineses) > Colocou um home theater de última geração (holandês) inteiramente digital
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Instalou uma jacuzzi (vietnamita) para a suite do casal pelo valor de 30 mil dólares Realizou também seu grande sonho de viagem: ir a Paris e ficar hospedado no Ritz pagando 600 euros a diária. Mesmo estando na cidade e tendo à disposição os melhores restaurantes do mundo e com grana – emprestada, é bom lembrar - no bolso, John não abria mão do seu hambúrguer no jantar.
Tudo comprado em longas prestações, com entradas bem pequenas, tudo a crédito. Uma farra. A esposa do John, deslumbrada com a repentina ascensão social, abusou dos 28 cartões de crédito que possuía.
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Aproveitou também para fazer algumas cirurgias plásticas. ”Seus seios ficaram lindos”, dizia John todo orgulhoso.
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John era o sonho americano em forma de pessoa. O tempo passou. O tempo, esse malvado, sempre passa. . . No começo de 2007 começaram a correr boatos que os preços dos imóveis estavam caindo. As casas que John tinha comprado e estavam em fase final de construção caíram vertiginosamente de preço e não tinham liquidez. O negócio que John tinha se metido era refinanciar a própria casa, usar o dinheiro para comprar outras casas em começo de construção e revendê-las com lucro, repassando as hipotecas.
Fácil. Parecia fácil. Sempre parece fácil. Só havia um probleminha com o negócio do John: todo mundo teve a mesma idéia ao mesmo tempo. As taxas de juros das hipotecas que John pagava começaram a subir (eram pós- fixadas) e John percebeu que seu investimento em imóveis se transformara num desastre. Milhões tiveram a mesma idéia de John. Tinha casa pra vender como nunca.
John foi agüentando as prestações da sua casa refinanciada, mais as das 3 casas que ele comprou para revender, mais as prestações dos carros, dos notebooks, das tv de plasma, da jacuzzi milionária, do home theater e dos cartões de crédito. E tinham também as plásticas. Aquelas “dos seios lindos”, lembra?
Aí as casas que John comprou para revender ficaram prontas e ele tinha que pagar uma grande parcela.
Só que John tinha gasto o dinheiro. No momento da parcela maior, John achava que já teria revendido os 3 imóveis.
Mas os compradores tinham desaparecido.
Começou a não pagar aos bancos as hipotecas da casa que ele morava e das 3 casas que ele havia comprado como investimento.John começou a não pagar suas milhares de contas.
Os bancos ficaram sem receber de milhões de especuladores iguais ao John. E também das milhões de pessoas que compraram essas casas dos que tiveram a idéia antes do John.
John optou pela sobrevivência da família.
John entregou aos bancos as 3 casas que comprou , perdendo tudo que tinha investido.
John quebrou Ele e sua família pararam de consumir. Um sem número de Johns deixaram de pagar aos bancos os empréstimos que haviam feito baseados nos preços dos imóveis. Os bancos haviam transformado os empréstimos de milhões de Johns em títulos negociáveis. Com a inadimplência dos Johns, esses títulos passaram a valer pó. Bilhões e bilhões em títulos passaram a valer nada e eles estavam disseminados por todo o mercado, principalmente nos bancos americanos, mas também em bancos europeus e asiáticos.
Os imóveis eram as garantias dos empréstimos, mas esses empréstimos foram feitos baseados num preço que esses imóveis não valiam mais. Os preços dos imóveis eram uma bolha, um ciclo que não se sustentava. A inadimplência dos milhões de Johns atingiu fortemente os bancos americanos e europeus que perderam centenas de bilhões de dólares.
A farra do crédito fácil acabou Com a inadimplência dos milhões de Johns, os bancos pararam de emprestar por medo de não receber. Os Johns pararam de consumir porque não tinham crédito. Mesmo quem não devia dinheiro não conseguia crédito nos bancos e quem tinha crédito não queria dinheiro emprestado. O medo dos Johns de perder o emprego fez a economia travar.
Recessão é sentimento, é medo do futuro. Mesmo quem pode, pára de consumir. O FED (Federal Reserve, o Banco Central americano) começou a trabalhar de forma árdua, reduzindo fortemente as taxas de juros e as taxas de empréstimos interbancários. O FED também começou a injetar bilhões de dólares no mercado, provendo liquidez. O governo Bush lançou um plano de ajuda à economia sob forma de devolução de parte do imposto de renda pago, visando incrementar o consumo. Porém, ainda não se sabe o resultado prático dessas medidas na economia real.
Até que o impensável aconteceu… O pior pesadelo para uma economia: crise bancária, correntistas correndo para sacar suas economias, boataria geral, pânico. Um dos grandes bancos da América, o Bear Stearns, amanheceu quebrado, insolvente. O FED, de forma inédita, fez um empréstimo ao Bear, apoiado pelo JP Morgan Chase, para que o banco não quebrasse. Depois disso o Bear foi vendido para o JP Morgan . Mais recentemente as financiadoras de hipoteca FREDDIE MAC e FANNIE MAE também se viram em situação de quase insolvência. Rapidamente o congresso aprovou um plano de ajuda às duas empresas. Se elas quebrassem, teríamos um efeito cascata e o sistema desmoronaria. O mercado e as pessoas seguem sem saber o que esperar. O que começou com o John, hoje afeta o mundo inteiro. A coisa pode estar apenas começando. Só o tempo poderá dizer o que vai acontecer.
E o John e sua família? O John devolveu todos os bens para as financeiras e ainda ficou devendo um dinheirão. Aventou a possibilidade de devolver as plásticas da esposa, porém logo viu que era inviável. Mas pelo menos “os seios continuam lindos”, consola-se John.